abril 30, 2005

devaneio

Somos seres secretos dentro de nós, da nossa essência conhecemos o nosso corpo e a nossa ideia de nós, fora isso tudo é um ponto de interrogação que secretamente vai evoluindo para a adoração do transcendente.
Existimos na nossa ideia. A ideia dos outros sobre nós é um reflexo da sua compreensão sobre a nossa existência. Uma ideia que se perde na nossa aparência e que morre na quebra da nossa actuação. Por isso somos imprevisíveis para nós e para os outros. Pela nossa falta de conhecimento e porque os outros julgam nos conhecer.

O erro existe? Nenhum. Não erramos por existirmos numa imperfeição que julgamos ser, em muitos momentos, perfeita. Acreditamos assim que somos nós próprios quando existimos mas é uma dimensão, uma perspectiva parcial. Somos nós e os outros, sem sabermos que somos. O problema existe? Nenhum. A interiorização de sentimentos pelos outros e dos outros transformam-nos em seres partilhados. Não somos únicos pois utilizamos a informação produzida por outros, que trazem consigo cargas de aplicação e investimento individual e intelectual.

Existimos por nós e de nós para os outros e na nossa individualidade construímos uma rede colectiva de partilha permanente.

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somos seres actuais

apenas no futuro do actual presente
podemos compreender o passado
no presente imediato

somos seres limitados
no nossa ideia e somos
apenas seguidores de
ideias concebidas por
outros seres que apenas
diferem entre si nas
oportunidades


somos uma produção social
somos máquinas

Publicado por cajosilva em 02:00 AM | Comentários (0)

fevereiro 01, 2005

...

gosto do estar com os amigos e gosto deles, gosto do céu azul e do sul em tempo de Verão

Publicado por cajosilva em 12:25 AM | Comentários (0)

vem e vai

vem pelo saber e vai pela arrogância

Publicado por cajosilva em 12:21 AM | Comentários (0)

o pianista

eras tu e o teu piano
a tua guerra e a guerra dos outros
a tua vida e a morte dos outros
a tua sobrevivência e a obrigação dos outros
a tua dor e o rigojizo dos outros
tu e os outros

Publicado por cajosilva em 12:19 AM | Comentários (0)

pequena ideia

não há mais nada a fazer
tudo parece já estar escrito
nada mais há a explorar
contudo e do nada
surge a grandeza de uma pequena ideia
e ela vinga e floresce
cresce e ganha corpo
alimentasse então,
e torna-se independente
e já não é mais nossa
pertence aos outros
e se eles gostam…

Publicado por cajosilva em 12:10 AM | Comentários (0)

janeiro 31, 2005

aparente normalidade

apenas uma leve linha
me separa do lado negro
do lado do absurdo
do lado da inexistência de sentido
da ruptura
do fracasso
da loucura
da total insensibilidade
apenas uma linha
me segura à aparente
à aparente
à aparente
à aparente normalidade

Publicado por cajosilva em 10:14 PM | Comentários (0)

janeiro 22, 2005

respirar

no presente momento escapa-me o meu respirar
ele transborda sem consentimento
e invade o mundo, inerte
é mais pesado que o meu ser
representa mais de mim que eu dele
porquê?

momento

Publicado por cajosilva em 01:38 AM | Comentários (0)

dezembro 30, 2004

Entre o Sono e o Sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa, 11-9-1933


Publicado por cajosilva em 02:19 AM | Comentários (0)

novembro 25, 2004

inicio

na certeza da indecisão
existe a agonia cutilante,
as pernas e o ar são respirados
para um buraco negro,
sente-se uma maré irreal
de enchentes e vazamentos,
a loucura parece estar próxima
mas o sangue garante-nos
a existência ainda intranquila

a visão esclarece-se,
o farol indica-nos uma direcção lacinante
e nesse momento
paramos

Publicado por cajosilva em 02:10 PM | Comentários (0)

antes do inicio

o início parece que não tem fim,
prolonga-se para lá do finito,
espalha-se no horizonte
e num colapso
transforma-se em nada,
estagna-se e em espiral
afunda-se tão lentamente
como a doçura do mel

queima a monotonia
e o ar pesa para lá do sol,
um breve instante, um respiro
e tudo se inicia

Publicado por cajosilva em 02:05 PM | Comentários (1)

novembro 21, 2004

na ilusão

na ilusão difusa
de um querer
espartilha-se o ser
e envolve-se em lutas (des)controladas
cobrindo-se depois
de água ou areia
enterrando-se e levantando-se
até ao limite do respirar e suspiro

Publicado por cajosilva em 08:22 PM | Comentários (0)

no tempo

na onda do pensamento distante
fixam-se os olhos no horizonte
e perde-se o tempo e o corpo
e ganha-se alma e ilusão

Publicado por cajosilva em 08:15 PM | Comentários (0)

novembro 10, 2004

sem título

lá fora, no percurso das cidades,
vagueiam árvores entroncadas, cheias de força,
têm nos braços prolongamentos de si
que agora se agitam em cores fantásticas,
cobrindo de magia um respirar adocicado.

dançam as cores na simbiose perfeita
e os nossos olhos correm deslizantes, puros
reclamando sempre aquela imagem
como simbolo de uma estação

Publicado por cajosilva em 03:57 AM | Comentários (0)

outubro 17, 2004

sem título

a felicidade mudou e transformou-se nas asas de um pássaro

Publicado por cajosilva em 01:13 PM | Comentários (0)

outro tempo

o tempo do radioso sol parece ter terminado
agora as nuvens ocupam o seu lugar
e com elas a chuva aparece, sorrateira ou repentinamente
é tempo de ficar em casa
no conforto
mas eu...eu não consigo conviver muito tempo em casa,
não é de agora é de há muito,
e desespero por que o sol regresse em força
e me convide de novo a recebê-lo

Publicado por cajosilva em 01:12 PM | Comentários (0)

julho 31, 2004

nevoeiro

mágico manto
alimento de fantasias
mortal

silencioso e belo
calmo

animo na sua aparência

Publicado por cajosilva em 10:41 AM | Comentários (1)

fogo arde

o verde consome-se,
não foge, arde
o vermelho sobe as encostas
a água nasce e morre num ápice
o homem olha,
impune, incapaz...olha
e o fogo arde
encara os céus e despede-se

Publicado por cajosilva em 10:38 AM | Comentários (0)

silêncio

Depois de uma semana de silêncio, por opção e por imposição, volto.
Mas volto com alguma angústia, pois olho para os espaços brancos à minha frente e não os consigo preencher.
Deixo então mais um espaço para o silêncio, mas logo de seguida sinto algum desassossego, que me não me deixa indiferente e me impele.
Rascunho o silêncio com som acústico e som de teclas a gravar caracteres e por momentos sinto-me mais preenchido.
Opto então pelo não-silêncio.

Publicado por cajosilva em 10:33 AM | Comentários (0)

julho 14, 2004

pensamento sexto

queria ser famoso
não o escondo.
porquê?
por orgulho em mim,
por confiança, por reconhecimento.
e depois
se tal não acontecer
serei famoso na mesma,
dentro de mim

Publicado por cajosilva em 02:14 AM | Comentários (0)

pensamento quinto

ao mudar-se uma pedra de lugar
muda-se o rumo à pequena pedra
ao tentar mudar-se um ser humano
é estar a mudar a sua existência
e pode-se sem querer
alterar-se o rumo de um mundo inteiro

Publicado por cajosilva em 02:12 AM | Comentários (0)

pensamento quarto

um conselho,
uma porta até para o impensável

Publicado por cajosilva em 02:10 AM | Comentários (0)

pensamento terceiro

sorri por um mundo melhor
pensa para teres e seres um mundo melhor

Publicado por cajosilva em 02:08 AM | Comentários (0)

pensamento segundo

na imensidão
onte tudo é nada
o valor está no incalculável

Publicado por cajosilva em 02:06 AM | Comentários (0)

pensamento primeiro

represento uma incógnita
para mim e para o mundo
e logo não há destino

Publicado por cajosilva em 02:05 AM | Comentários (0)

julho 07, 2004

sem tempo

o tempo foge-me que nem louco
e eu vejo-o a perder-se
e reclamo-o avidamente
mas teima na sua surdez
e continua a esgueirar-se, frenético
ausente

Publicado por cajosilva em 10:41 PM | Comentários (0)

abril 22, 2004

18h36m

A maré, do mar, parece agora recuar. Talvez vá para longe. Talvez suba em qualquer outro lugar, distante, e alguém como eu usufrui desse momento.
Prazer!

Publicado por cajosilva em 08:38 PM | Comentários (0)

18h30m

Oiço um ruído de fundo, de tábua seca, de metal, de pancadas descompassadas e risos, alguns risos sem pressa de o serem, e sinto neles alguma ansiedade, a ansiedade de quem não quer perder nada.
Eu estou sentado e não preciso de ver o que fazem, imagino-o, e isso por agora serve-me.

Publicado por cajosilva em 08:36 PM | Comentários (0)

18h26m

E na praia existe o mar. Temos nós uma relação privilegiada com esse colosso e no entanto voltamos-lhe as costas com frequência. Confiamos na sua força e ele na nossa sensibilidade.
Quem fica a perder?

Publicado por cajosilva em 08:33 PM | Comentários (0)

18h25m

Estou junto à praia no momento em que relaxo. Já não é a primeira vez que acho esta sensação, não é nova, mas é rara. A culpa? Não há culpa nas opções, elas cometem-se sempre na esperança de estarem certas.

Publicado por cajosilva em 08:31 PM | Comentários (2)

abril 05, 2004

luz?

brilha à minha frente
sempre imóvel
por vezes foge sem avisar
e eu apenas lhe
atribuo a existência quando me faz falta.
contudo a sua inexistência seria natural
afinal o desperdício somos nós que o criamos

Publicado por cajosilva em 03:03 AM | Comentários (0)

abril 04, 2004

vivo

"Faz de vivo enquanto estás vivo."
Vergílio Ferreira, in Escrever

Publicado por cajosilva em 12:21 PM | Comentários (0)

...

pesa-me o correr
mas parado quase que me esmago

Publicado por cajosilva em 12:09 PM | Comentários (0)

março 28, 2004

Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?

Eurípedes - (480 - 405 a.C)

TRECHO DE "BELEROFONTE"

Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?
Não há, não há, não há. Não deixem que ninguém,
mesmo crente sincero nessas velhas fábulas,
com elas vos engane e vos iluda ainda.
Olhai o que acontece, e dai a quanto digo
a fé que isto merece: eu afirmo que os reis
matam, roubam, saqueiam à traição cidades,
e, assim fazendo, vivem muito mais felizes
que quantos dia a dia pios são e justos.
Quantas nações pequenas, bem fieis aos deuses,
sujeitas são dos ímpios com poder e força,
vencidas por exércitos que as escravizam.
E vós, se em vez de trabalhar rezais aos deuses,
e deixais de lutar para ganhar a vida,
aprendereis que os deuses não existem. Que
todas as divindades significam só
a sorte, boa ou má, que temos neste mundo.

(Tradução de Jorge de Sena)

Publicado por cajosilva em 05:56 AM | Comentários (0)

março 27, 2004

cr ia r

agarro numa qualquer palavra ou significado e brinco-o.
porquê?
é um momento de criação
é um momento de um prazer
que não cabe numa qualquer brincadeira

Publicado por cajosilva em 01:50 AM | Comentários (0)

...

olho na esperança de ver
mas são tantas as vezes que julgo que estou cego

Publicado por cajosilva em 01:47 AM | Comentários (2)

onde?

é lá longe, sim lá longe
onde o meu olhar não alcança
onde tudo acontece de forma certa.
aqui onde existo
os conteúdos são falsos,
empregnados de uma ilusão falsária de bem estar
e é lá longe onde não estou
que me identifico,
que me reconheço e renasço
por cada gesto que imagino.
é um espaço natural, virgem.

Publicado por cajosilva em 01:45 AM | Comentários (1)

palavras corrosivas

as palavras escorrem-me pela garganta
dilacerando o meu peito
à medida que se precepitam para o húmus
são como ácido corrosivo
que marcam de forma incontornável
o percurso que ladeiam

Publicado por cajosilva em 01:42 AM | Comentários (0)

escrever na noite

abre-se a noite e com ela a porta
para um exercício solitáio.
penteio na folha
a mina que se desgasta ao sabor do pensamento
e estende-se assim
por respiros lentos e pesados

Publicado por cajosilva em 01:38 AM | Comentários (0)

março 24, 2004

sonoridade

Na infinitude dos sons
onde a loucura se transforma numa suave dança de imagens
as pálpebras cerram-se e uma ligeira brisa desce pela pele
e expande-se no espaço vazio de conteúdo
e o corpo ganha contornos de azul-cobalto
e dispersa-se na melancolia de um suspiro

Publicado por cajosilva em 02:24 AM | Comentários (1)

janeiro 13, 2004

sometimes...


sometimes i think...

Publicado por cajosilva em 03:04 AM | Comentários (0)

janeiro 10, 2004

tristeza versus felicidade

Para recordar Vinicius de Moraes...e as vezes que questionamos o que é isso de felicidade e tristeza.

"A Felicidade"


Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem

Editora Musical Arapuã

Publicado por cajosilva em 04:09 PM | Comentários (0)

dezembro 20, 2003

pena por pena


voo e enconto um apena
mas não é a tua pena
nem é a minha, nem é a pena de não ser tua
é a pena de não seres as minhas asas

Publicado por cajosilva em 12:03 PM | Comentários (0)

outubro 03, 2003

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes é um dos poetas e músicos mais incontornáveis do Brasil tendo sido o principal percursor da Bossa Nova. Depois de ter estado a ver a entrevista com o Gilberto Gil senti vontade de o ouvir, Vinicius, e me deliciar com os seus poemas cantados por Maria Creuza e Toquinho, admirável.
Fiquei, recentemente, também surpreendido quando tomei conhecimento que toda a sua obra iria estar disponível na net. É verdade, a família de Vinicius de Moraes decidiu tornar acessível a todos a obra deste grande homem das artes.

De tantas músicas que compôs era dificil estar a seleccionar uma, mas quer pela sua letra quer pela sua musicalidade decidi que "A FLOR DA NOITE", seria uma boa opção.

flor da noite
Vinicius de Moraes / Toquinho


Na solidão escura
Do velho Pelourinho
Matilde, a louca mansa
Vivia mercando assim:
Olha a flor da noite ...
Olha a flor da noite ...

Seria a flor da noite
A luz da estrela solitária
A tremular tão pura
Sobre o velho Pelourinho?
Ou o som da voz ausente
Da menina triste
Que mercava o seu triste descaminho:
Olha a flor da noite ...
Olha a flor da noite ...

Ou seria a flor da noite
A face oculta atrás da aurora
Por quem o homem luta
Desde nunca até agora
A louca aprisionada
Pelos monstros do poente
E que avisa e grita alucinadamente:
Olha a flor da noite ...
Olha a flor da noite ...

© Tonga Editora Musical LTDA


in "Toquinho e Vinicius"

Publicado por cajosilva em 01:31 AM | Comentários (1)

outubro 01, 2003

lembrei-me de ti Pessoa

Não te conheço Pessoa
Mas desejo-o tremendamente
O que se escondia trás dos óculos?
Porquê esse bigode totalitarista?
Que loucura te invadia
Desde que acordavas até ao acaso?
Um corpo delgado te envolvia
Numa altura de pequenos seres
E todos te reconheciam como mestre
Mestre só post mortem.
Tinhas um grande sonho
E demorou tanto que só o tua memória se lembra.

Publicado por cajosilva em 04:02 AM | Comentários (0)

...

A morte navega... não andes de barco

Publicado por cajosilva em 03:59 AM | Comentários (0)

setembro 29, 2003

personagens fictícias 6 - breve conversa de amor

- Amas-me?
- Porque é que perguntas?
- Diz-me amas-me? Di-lo sinceramente.
- O que é que se passa, o que te deu?
- Porra pá, responde à pergunta. Ou sim ou não.
- Amo, claro que sim, tu sabe-lo. Porquê? Tu amas-me?
- Mude-mos de assunto.
- Mudar de assunto, porquê? Responde-me agora ou não sabes?
- Não sei o quê?
- Se me amas. Não sejas tolo. Diz, sim ou não
- Lá estás tu.
- Vá responde, não custa nada.
- O que é que achas?
- O que interessa o que acho? Responde, mas é, que já não estou a gostar. Vá lá amor, responde.
...

Publicado por cajosilva em 03:19 AM | Comentários (0)

personagens fictícias 5

Saloma
Grotesca nos modos
Peito cheio e largo
Pele vermelha do vinho
Baixa como um cepo de oliveira
Enérgica como um garoto
Cheia de memórias
Cheia de saudades

Publicado por cajosilva em 03:15 AM | Comentários (0)

personagens fictícias 4

Ramalho
Indivíduo careca
Com idade para ser avô
Saltava como um garoto
Quando o verde da esperança lhe dava alegria
O coração esse ainda aguentava
Mas já falhava em momentos chave,
Mas a vida continua, dizia
E cheio de orgulho
Exibia as fotografias dos seus netos
Com os seus filhos lá longe
Estava sozinho
E assim passava os dais
Quebrado pela alegria da esperança.

Publicado por cajosilva em 03:14 AM | Comentários (0)

personagens fictícias 3

E o Rómulo
Senhor entrado com o tempo
Apreciador de um bom prato
Regado de boa pinga
Passava as tardes no jardim
A jogar sueca e malha
A reforma ia na doença
Malvadas cataratas
Temeu-se o pior, mas resolveu-se
Sozinho no mundo
Com o trabalho dos filhos malditos
Vivia momentos de angústia
Já não tinha força para mais
Nem alegria dos netos
Chamo-lhe avô
As rugas dão-lhe esse poder
Óptimo contador de histórias
Sem ouvintes sem tempo
Até quando o jardim e as cataratas?

Publicado por cajosilva em 03:13 AM | Comentários (1)

personagens fictícias 1

O Zé Manco
Indivíduo direito
Senhor de papel
Com carro à condição
Exibia-se às sextas
Junto do café do Sousa
Com um fato caro
E cabelo a preceito
Era cobiçado pelas madames
Que não lhe conheciam a peça
Dizia-se ter filhos sem conta
Mas ninguém lhos conhecia
Homem sem medo
Ia a todas sem receio
Sem mulher em casa
Comia fora, no Aníbal do Pimpolho
Era impecável diziam
Altruísta e amigo dos pobres.

Publicado por cajosilva em 03:11 AM | Comentários (0)

...

o que há de sagrado em ti?
Nada?
Sim há a alma
E o teu corpo é a ideia de ti mesmo.

Publicado por cajosilva em 03:07 AM | Comentários (0)

o mundo ao contrário

o undom tseá ao ontcrioár
edpe-se ugerra me zev ed azp
atam-se me zev ed es rama
uacsau-se me zev ed es ptrogero
rudcilariza-se o rafco
e prteoeg-se o irco
ád-se omfe e ãon amlentio
...
o undom tseá ao ontcriár
ãno é lopes etus lhoso
men lopes eusm
men lape onssa cgiuerae

o undom tseá ao ontcriár
e meramos laemrgente omc lee
lope oasbr ad ragça od etr

o undom tseá ao ontcriár
e omoss cpazase ed o ljgaru
mes ons ljuargmos
e ova-mos omc as recos
pro resem fidametenvelin lbesa

o undom tseá ao ontcriár
e a amlofaad é ãot cfortálve
e a nitoe ãot onssa agmia...

Publicado por cajosilva em 03:05 AM | Comentários (0)

setembro 23, 2003

03.30h

desespera-me o corpo porque me pede descanso
agita-se a alma porque quer expansão

não sei o que fazer neste duelo de forças

Publicado por cajosilva em 03:30 AM | Comentários (1)

setembro 05, 2003

ocorreu-me escrever a Virgílio Ferreira

Virgílio meu amigo
não me ouves
mas és meu amigo.
que dom te deram
e porque se esqueceram de mim?
que prazer tinhas,
que pensamento de acompanhava,
que maravilha te iluminava,
que paz te preenchia,
que inquietação te prendia
às folhas de papel que tu tão bem ilustravas.
serias génio na tua humildade
ou humilde na tua genialidade?
e a tua vida como foi ela?
Bela, crua ou insatisfeita?
A nossa existência fascinava-te
e tu dormias com ela, sempre viva, admirável.
querias responder para te achares
e narravas os teus passos
em jeito de ficção, realidade e perplexidade.
é bom ter-te como amigo,
passas a fronteira do desaparecido
para viveres em harmonia com o sujeito,
é belo o teu ritmo e cadência.
também tu ofereces novos mundos ao mundo,
é esse o papel de um homem
não ser um número, mas ser possuidor de um nome

Publicado por cajosilva em 02:12 AM | Comentários (1)

...

respiro e vivo/ morrer é ficar ausente/ perder o tempo do futuro

Publicado por cajosilva em 02:08 AM | Comentários (0)

...

conhecermo-nos a nós próprios
é tão difícil como saber
as estrelas que há no céu,
estas são infinitas,
nós somos imprevisíveis.

Publicado por cajosilva em 02:03 AM | Comentários (3)

...

por vezes questiono-me
do significado de algumas palavras
e o porquê da sua existência.
mas chego sempre à mesma conclusão:
as que existem ainda são poucas
para expressar-mos
tudo aquilo que queremos

Publicado por cajosilva em 02:02 AM | Comentários (0)

não sós

por vezes
faltam-no as palavras
e o silêncio
invade e envolve
deixando-nos tantas vezes
entregues a nós mesmos
e...
algumas deliciosamente acompanhados

Publicado por cajosilva em 02:01 AM | Comentários (1)

tinta & papel


agora que escrevo
e que a tinta
se une com o papel,
consigo compreender
e ao mesmo tempo questionar-me,
se o que realmente queremos
é encontrar-mos a nossa tinta
ou o nosso papel

Publicado por cajosilva em 01:59 AM | Comentários (1)

setembro 01, 2003

não caibo dentro de mim

não caibo dentro de mim
sou tanta coisa
sou um som de uma melodia
sou um por do sol
sou uma gota de chuva que se mata no chão e ganha
vida na terra
sou pássaro com asas enormes que me impelem
contra a corrente de um ar tão denso quanto uma
noite cerrada de murmúrios
sou um sol como Luís XIV e a sua grandiosa figura
numa França enfurecida
sou noite
como fantasma como uma porta que se abre numa
casa esquecida num monte de vendavais
sou um momento de loucura
sou um momento de prazer que se propaga como uma
onde de calor num dia de verão quente
sou um sorriso de uma pessoa que se diverte com a
brincadeira de um gato
sou a tristeza de um velho só esquecido por entre
as molduras que ornamentam a sua lareira
sou a distância que trespassa a minha própria
vontade
e gostava de ser uma folha para me escreverem
tudo o que lhes fosse de desejo e assim partilhar
o mais intimo e o mais sagrado
e gostava de ser homem de barro e moldar com as
mãos e cabeça uma peça viva como o corpo de uma
mulher
e gostava de ser o vento
e não ser uma simples aragem que sopra e que se
esquece a seguir.

Publicado por cajosilva em 02:59 AM | Comentários (1)

palavra onde estás?

palavra, perdi-te, onde estás?
Onde estás tu? Diz-me, responde.
Leva-me ao teu encontro, dá-me um sinal, não ouves?
Fala baixinho em sussurro, mas diz-me.
Não te encontro, onde estás?
Ondeeeeeeeeeeee?
Assim não te consigo escrever.

Publicado por cajosilva em 02:53 AM | Comentários (1)

pele


um pequeno deslize
um tom
um aroma
um breve doce que não fica
um sonho infinito
uma sensação de poesia

pele

Publicado por cajosilva em 02:40 AM | Comentários (2)

agosto 27, 2003

sábado 4.58h - cor

gosto de verde nos olhos
e de preto e de castanho e
de azul e de cor de avelã e de acinzentado
e
gosto de castanho nos cabelas
e de preto e de cajú e
de violio e de acobreado
e
gosto de castanho na roupa
e azul e vermelho e preto
e cinzento
e
gosto do azul do céu e do vermelho
e do laranja e do rosa
e....

Publicado por cajosilva em 01:48 AM | Comentários (1)

sábado 4.40h - mãos

Escrevo nas mãos da Claudia Clemente, assim mesmo, sem acento a carregar o «a».
Não a conheço, apenas sei que ela é arquitecta e que tem umas mãos lívidas. Talvez por isso senti-me atraído em fazê-lo, um sentido de honra a uma desconhecida.
Tapam-lhe a face por completo, mas entre as finas mãos vislumbram-se uns lábios vermelhos, nuam fotografia a preto e branco.
Está só,
e viro a página e vejo um jogo de mãos.
Agora acho que escreve, bem?, não sei,
e continuo a folhear com os meus dedos as folhas das mãos dela.

Publicado por cajosilva em 01:40 AM | Comentários (0)

agosto 26, 2003

sábado 5.15h - ...

a noite continua lá fora em movimento
parece que não mexe
mas devagarinho levanta-se
e emigra para outras terras
até nisso a noite é misteriosa
ficamos sempre a pensar onde é
que ela vai a seguir
não é difícil porém, basta saber
as diferenças horárias
mas queremos nós saber disso?
que se lixe
é sempre tão melhor
imaginar onde estará ela a seguir
e assim poder jogar
um jogo que não nos
cansamos de repetir
talvez por isso não me
preocupe
a noite amanhã está aí outra vez

Publicado por cajosilva em 12:19 AM | Comentários (2)

agosto 25, 2003

pás

Pis pus pás
Catrapás paz, pás
Zim zum zum
Catrafum fum fum
Singa, pinga, linga
Zunga, punga, punga
Funga, munga, punga
Xinga, finga, punha
Zigapum, zingapás, pás

Pum, pás
Pinga, pinga, pinga, pinga, pás
Pás pum, pummm
Pás
Singa, punga
pás

Publicado por cajosilva em 02:27 PM | Comentários (2)

agosto 18, 2003

Poemário

No Natal um amigo meu ofereceu-me o Poemário 2003 da Assírio e Alvim. Para quem não conhece é uma compilação que atribui a cada dia do ano um poema, um pensamento ou um pequeno excerto de obras de autores todo o mundo. Hoje olhei para ele e deu-me vontade de partilhar um desses poemas, sendo o que corresponde exactamente ao dia de hoje, 18.

Procuro na morte a vida,
saúde na enfermidade,
na cadeia a liberdade,
no mui fechado saída
e no traidor lealdade.
Mas minha sorte, de quem
jamais espero algum bem,
como céu estab’leceu
que, se o impossível peço eu,
nem o possível me dêem.

Miguel de Cervantes (1547 – 1616)
Antologia da Poesia Espanhola do “Siglo de Oro” – Renascimento
(tradução de José Bento)

Publicado por cajosilva em 03:56 PM | Comentários (1)

agosto 17, 2003

mudo, mundo

não mudo o mundo
mas ele muda-se e eu mudo.
alguém o muda, quem?
o que importa saber como é que eu mudo?
como é que não mudo o mundo?
serei assim tão insignificante?
talvez não seja mesmo significante.
eu mudo com o mundo,
o mundo muda o meu mundo.

Publicado por cajosilva em 04:27 PM | Comentários (3)

agosto 12, 2003

máscara


Jazes no meu quarto,
a um canto
sempre com o mesmo olhar,
a mesma expressão,
a mesma indiferença,
não sei porque vives assim.
Julgas que me dá prazer ver-te assim?
Olha que não.
Olho-te e estás imóvel, quase podre,
mas continuas com a cor da morte eterna
que, até te cai tão bem.
Eu continuo a fazer tudo o que sempre fiz.
Tu, inerte como o sol explodido
colaste-te ao pó que vagueia por aqui.
Que importa enquanto vivo?

Publicado por cajosilva em 11:26 AM | Comentários (1)

agosto 03, 2003

amigos

não encontro palavras, vale a pena só pensar... e tê-los comigo.

Publicado por cajosilva em 04:02 PM | Comentários (2)

julho 23, 2003

espera

espera-me lé em baixo,
espera-me ao fundo das escadas
(as escadas que formam um carocol)
e quando eu for a descer recebe-me de braços abertos,
recebe-me como se há muito não me visses,
sorri para mim como se estivesses a ver uma aparição
e abraça-me,
abraça-me como se te estivesses a despedir de mim,
como se eu fosse para longe e só regressasse após muitos anos
e quando me abraçares fala-me doce,
(como o doce que eu adoro)
tão doce que eu não tenha vontade de partir
tão doce como se fosses tu que te estivesses a despedir
e nesse falar olha-me intensamente
tão intensamente que eu me veja dentro de ti,
olha-me demoradamente como quem se apaixona à primeira vista.

espera-me lá em baixo,
hoje, só hoje...

Publicado por cajosilva em 01:48 AM | Comentários (3)